Uso de Hormônios na Menopausa, “Uma História em Evolução!”

Uso de Hormônios na Menopausa, “Uma História em Evolução!”

Março/2018 em Sem categoria

Por: Prof. Dr. Marcelo Gennari Boratto, ginecologista e mastotogista. CRM 80335

O ser humano vem demonstrando uma capacidade incrível de evoluir, vide o aumento exponencial da nossa expectativa de vida no último século. Se pensarmos nas mulheres que, em tempos remotos como na era medieval, viviam em média 25 anos, passaram para 50 na década de 1970, 65 na década de 90 e atualmente a expectativa é de 82 anos para as populações do sul e sudeste do Brasil, essa conquista foi atingida por inúmeros fatores.

As razões para esta longevidade envolvem desde o surgimento do saneamento básico aos avanços em saúde e tecnologia, como a descoberta de antibióticos, assistência medica ao parto, o desenvolvimento de equipamentos de diagnostico, vacinas, a conscientização sobre a importância da prevenção e detecção precoce das doenças, e as mudanças nos hábitos de vida.

Do ponto de vista hormonal, porém, essa evolução foi parcial.  É verdade que as meninas estão se tornando mulheres cada vez mais rápido, visto que a idade media para a primeira menstruação regrediu de 14-16 anos para os 9-12 anos de idade. Em contrapartida, a idade para início da falência hormonal persiste na faixa entre os 40 e 55 anos, fase dita como climatério. Quando seguida da ausência da menstruação por 12 meses consecutivos, este período culmina com a instalação do evento vivenciado e muitas vezes temido pelas mulheres: a menopausa, que tende a ocorrer aos 47 anos.

A longevidade alcançada nas últimas décadas é obviamente positiva, mas traz consequências. As mulheres estão vivendo um terço ou mais de suas vidas na pós menopausa e muitas sofrem as consequências disso.

Isso é muito preocupante, pois a mulher moderna, com 47 anos, está praticamente no auge de sua vida e realizada no âmbito familiar e profissional. Seu corpo, porém, passa a não acompanhar e satisfazer todas os desejos de sua mente e 80% das mulheres têm que conviver com os aterrorizantes sintomas maléficos da menopausa.

O mecanismo que leva a menopausa já e bem conhecido pela ciência, bem como as consequências da deficiência dos principais hormônios femininos, como estrógenos e a progesterona, seguidos dos da tireoide e a testosterona.

O resultado deste desiquilíbrio são inúmeros distúrbios caracterizados principalmente pelos fogachos, com seus calores diurnos e noturnos, a labilidade emocional, com surtos melancólicos e irritabilidade, a letargia cognitiva, com lapsos de memória, o cansaço intermitente e a perda da libido.

Também são comuns na pós menopausa as dores articulares, que surgem pela diminuição do liquido sinovial, aquele que lubrifica as articulações. Outros sintomas, como os  geniturinários, através da secura vaginal e da dor na relação sexual, tornam ainda mais suscetíveis as infecções, como corrimentos, cistites,  e até a incontinência urinaria, causados pela falta de colágeno nas mucosas da vagina e vulva.

A pós menopausa afeta também a pede das mulheres com surgimento de rugas e pigmentos. Outro sintoma é a perda do poder de formação e manutenção da estrutura óssea, o que aumenta a propensão à osteopenia e à osteoporose.

Todos esses sintomas indesejáveis estão diretamente relacionados a deficiência dos hormônios e, desde a década de 50, a ciência médica procura mecanismos para controlar essa síndrome.

Em 1960, descobriu-se que os hormônios contidos na urina de éguas grávidas, os estrógenos equinos conjugados, quando ministrados em mulheres na menopausa, melhoraravam maioria destes sintomas. Essa descoberta fez com que mulheres e sociedades médicas achassem terem descoberto a poção da juventude.

Passados uma década de uso expansivo, observou-se que aproximadamente 40% das mulheres que faziam uso deste tipo hormônio regularmente apresentaram doenças na película que reveste o útero, o endométrio, e que muitas vezes estas evoluíam para o câncer endometrial.

Em meados de 1970, passou-se a associar um outro hormônio já bem conhecido na época e com alta eficiência em controlar as doenças endometriais causadas pelos estrógenos: os progestogenos. Esse casamento passou a liderar, por décadas, os estudos sobre os benefícios do uso dos hormônios na pós menopausa, atingindo altíssimos índices nas prescrições medicas para a reposição hormonal e sendo usado até meados da década de 90.  Por incrível que pareça, esse tipo de tratamento resiste até os dias de hoje.

Já em 1994, um grupo americano chocou a todos quando suspendeu abruptamente um dos maiores estudos já realizados a respeito de uso de hormônios em mulheres na menopausa em todo mundo: o WHI. Este ato veio como uma bomba sobre a classe médica e com consequências catastróficas para as mulheres. Ficou provado que o “casamento” até então perfeito (estrógenos e progestogenos) tinha um efeito perigosíssimo, pois aumentava muito o risco de derrame cerebral, infarto, trombose e câncer de mama nas mulheres que faziam uso por mais de quatro anos.A partir daí, novos estudos foram realizados.

Nesta mesma época, eu estava terminando meu doutorado e pude conviver muito com a descoberta de novos hormônios, inclusive os ditos bioidênticos,  cujas novas doses foram experimentadas, e outras vias de administração, diferentes da oral, foram testadas. A partir de então,  iniciou-se a separação e alternância do uso destes dois hormônios, procedimento que passou a ser visto como ótima opção para minimizar tantos os sintomas da menopausa quanto os efeitos colateriais indesejáveis, como a doença endometrial, doenças cerebro vasculares e o câncer de mama.

Hoje, estamos convictos das vantagens do uso destes hormônios para melhorar os sintomas da menopausa. Permanecemos atentos, porém, para que o tratamento hormonal seja feito sob critérios de controle e seleção e não como reposição dos hormônios em busca de rejuvenescimento.

O uso dos hormônios é seguro e benéfico para as mulheres desde que sejam respeitados critérios de seleção das pacientes, levando em conta características pessoais, como densidade mamaria, perfil lipídico, hepático, coagulabilidade sanguínea, e hereditariedade. Assim feito, o uso destes pode garantir que as mulheres se beneficiem e possam melhorar muito sua qualidade de vida neste temido período.